• Núcleo de Empreendedores da USP

Como o Viés de Gênero Prejudica a Mulher no Mercado de Trabalho?


O patriarcado, sistema social em que homens mantêm o poder primário e predominam em funções de liderança política, autoridade moral, privilégio social e controle das propriedades, sempre esteve presente como alicerce na formação social e estrutural do Brasil. Dito isso, pode-se afirmar que o país possui raízes machistas, as quais atravessaram os séculos e perduram até os dias atuais. Hodiernamente, tais raízes ainda estão fortemente presentes na sociedade e influenciam diretamente o mercado de trabalho.

As mulheres são vistas como delicadas, frágeis e emotivas, características essas que não são atribuídas ao papel de alguém capacitado a ser um bom profissional, e muito menos, um líder. Isso é fruto de uma sociedade que desde muito cedo designa e ensina às mulheres que sua única possibilidade de sucesso é exercendo o papel de ser mãe e cuidar da casa. Em contrapartida, os homens são estimulados a serem fortes, determinados e a agirem de forma racional, o que dentro do mercado de trabalho é visto como atributos dignos de alguém capaz de desempenhar papéis de liderança.

Embora a participação da mulher no mercado de trabalho tenha crescido nos últimos anos, os estereótipos supracitados estão presentes em seu dia a dia como obstáculos que impedem que as mesmas recebam salários equivalentes ou superiores a aqueles atribuídos aos homens, ou ocupem cargos de liderança, isso reforça o olhar machista que a sociedade tem para com as mulheres, enxergando-as como inferiores aos homens. Quando fazemos um recorte social acerca de mulheres que pertencem a grupos marginalizados, como pessoas com deficiência, LGBTQIA+, mulheres pretas, mais velhas e mães, os números são ainda mais alarmantes.

De acordo com o IBGE, a participação das mulheres no mercado de trabalho vem crescendo, sendo que em 8 anos, a força de trabalho feminina aumentou 2,9 pontos percentuais. Entretanto, a remuneração do trabalho chega a ser em média 22% menor que dos homens, valendo ressaltar que essa diferença chega a aumentar para 38% em cargos gerenciais. No Brasil, dados do relatório Global Gender Gap Report mostram que nosso país se encontra na 130º posição de 153 nações quando se trata de igualdade salarial entre homens e mulheres que exercem funções semelhantes.

Esse atual contexto nos mostra o quanto as mulheres ainda enfrentam um cenário de desigualdade e discriminação no mercado de trabalho, apesar dos vários direitos trabalhistas já conquistados até hoje. Essa disparidade ocorre principalmente pelo papel social e cultural que é imposto às mulheres, como sendo, por exemplo, as responsáveis pelos trabalhos domésticos e pela família. É esse tipo de viés que acaba afetando ou até mesmo impedindo as mulheres de alcançarem altos cargos de liderança.

Um panorama sobre Liderança Feminina realizada no 2º semestre de 2021 pela StartSe mapeou 15 barreiras mentais enfrentadas por mulheres em cargos de liderança que prejudicam o desenvolvimento de suas carreiras e ameaçam a evolução da representatividade feminina. A principal barreira citada pelas 783 mulheres entrevistadas foi a seguinte frase: “Eu já evitei falar sobre as minhas conquistas profissionais por medo de parecer vaidosa ou orgulhosa demais”.

Essa barreira psicológica, assim como outras, são criadas pelos vieses inconscientes a partir de certos fatores como maternidade; estereótipos femininos de que mulheres são demasiadamente emocionais; ou também da crença de que homens são mais talentosos e competentes. Assim, todo esse cenário acaba reforçando tais vieses e dificultando a entrada e o desenvolvimento de mulheres em altos cargos nas empresas, nos levando a uma perenidade deste problema social da desigualdade de gênero dentro das organizações.

É nítido o agravamento do cenário de inserção das mulheres no mercado de trabalho quando trata-se daquelas pertencentes a grupos marginalizados pela sociedade, como por exemplo, LGBTQIA+. Esta situação é tão complicada que estudos mostram dados de 46% dos trabalhadores LGBTQIA+ nunca assumiram a sua orientação sexual no trabalho, isso ocorre em função do sentimento de infelicidade ou depressão que 31% deles afirmaram sentir neste ambiente. Se torna ainda mais nítida essa descriminação com a pesquisa do G1 mostrando que 1 em cada 5 empresas não contratariam homossexuais. Vale ressaltar que, a situação pode ser ainda mais agravante tratando de pessoas transexuais, ou quando o trabalho envolve relacionamentos com o público, já que há o mito que pessoas LGBTQIA+ podem influenciar os demais a mudarem sua sexualidade/ comportamento.

Desde 1991, tem-se em vigor a lei de cotas, que afirma o dever de empresas com mais de 100 funcionários contratarem pessoas com deficiência. Entretanto, ainda é um desafio muito grande a inserção destes no mercado de trabalho, um dos fatores que contribuem para isso, além do preconceito enraizado na sociedade, é a necessidade de adaptações no ambiente de trabalho (como aprendizado de língua de sinais, implementação de rampas...) isso faz com que muitas empresas contratem apenas aquelas pessoas com deficiências mínimas, o que hoje também é considerado discriminatório.

Novas oportunidades e a permanência no mercado de trabalho ainda são questões ainda mais complexas quando falamos sobre mulheres pretas. Ainda com o aumento de mulheres pretas no mercado de trabalho, é possível notar que a sociedade limita essas mulheres em trabalhos focais e informais, essa situação está ligada diretamente ao racismo institucional. Ainda com um número maior de mulheres pretas ingressando em uma universidade e possuindo diversas qualificações, a falta de reconhecimento e a desigualdade perante as oportunidades, dificultam o acesso dessas mulheres a cargos de liderança e cargos de decisão. Com isso, a permanência em empresas e a falta de oportunidade de crescimento é constante.

Com o aumento da expectativa de vida dos brasileiros, é cada vez maior o número de mulheres idosas buscando oportunidades no mercado de trabalho. Com o envelhecimento populacional, o número de mulheres mais velhas em busca de um emprego aumentou nos últimos anos, pois além da necessidade básica de obter renda, as mulheres idosas também possuem o objetivo de se manterem ativas no mercado de trabalho, entretanto elas enfrentam diversas barreiras diariamente para alcançar tal objetivo. Ainda que as mulheres mais velhas saibam lidar melhor com desafios e apresentam maior resiliência em situações diversas, o mercado de trabalho ainda rotula essas pessoas por conta de sua idade, fazendo com que fique mais difícil aumentar o número de pessoas mais velhas em ambientes como empresas, limitando essas mulheres à alguns serviços já impostos pela sociedade como: cozinheira e empregada doméstica.

As mulheres mais velhas pretas, LGBT’s e com deficiência fazem diferença no mercado de trabalho: uma pesquisa da Revista Exame aponta que elas melhoram o clima organizacional, atraem e retêm uma quantidade maior de talentos, potencializam as áreas de pesquisa e desenvolvimento de produtos e aumentam a produtividade das empresas. Leis de racismo e homofobia que já são existentes no papel, porém muito pouco fiscalizadas na prática e isso não é só um problema para o público feminino no mercado de trabalho, mas um grande problema estrutural de um país. Deste modo, há uma grande necessidade de investimentos em aumento das fiscalizações, pois a recusa de um membro por questão racial ou ser integrante LGBT é um crime de racismo e homofobia grave e passivo de multa/prisão, somente dessa maneira há maiores chances de grandes mudanças positivas para nossa sociedade e economia.


Como já foi dito anteriormente, o problema da discriminação da mulher no mercado de trabalho é estrutural e difícil de ser totalmente solucionado, mas isso não significa que nenhuma medida deve ser tomada. Na busca do equilíbrio de obrigações caseiras, nos países asiáticos houve mudança na grade das escolas para ensinar desde cedo as tarefas dentro de casa independente da idade ou gênero, sendo levado posteriormente dentro de casa a prática e até a vida adulta. Por ações como estas os países asiáticos abriram maiores possibilidades para a entrada e permanência de mulheres no mercado de trabalho e oferecendo maiores possibilidades para alguns cargos de liderança, sendo assim, países considerados mais modernizados e bem sucedidos. A Associação Movimento Mulher 360, por exemplo, iniciativa da ONU Mulheres e composta por empresas como Unilever, Cargill e Nestlé, busca desenvolver uma consciência coletiva sobre o empoderamento feminino, investindo em equipes com diversidade, capacitação, bem-estar e no desenvolvimento de suas funcionárias - e já vem colhendo resultados positivos. As empresas precisam se responsabilizar pela garantia da igualdade de gênero, já prevista em lei, e investir em estratégias que reposicionam as mulheres dentro dessa realidade. O fato é: essas profissionais qualificadas existem e só precisam do espaço que já é delas por direito.


Este artigo foi escrito por Maria Julia, Andrielly, Isabela, Aline, Larissa, Giovanna e Monique, membros do projeto Ennergia do Núcleo de Empreendedores da USP-RP

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